Unidade: Contexto e Identidade da IECLB - 2004
Documento do Concílio

Preâmbulo

“Pelos caminhos da esperança” é o tema que tem guiado a IECLB neste ano de 2004, juntamente com o lema bíblico “Preservando a unidade do Espírito no vínculo da paz” (Efésios 4.3). De fato, de múltiplas maneiras nos confrontamos com o tema da “unidade da Igreja”.

A Presidência tem chamado a atenção para a relevância e as implicações do tema, em seus relatórios ao Conselho da Igreja, que aprovou a proposta de convocação de um Fórum Nacional da Unidade, o qual foi realizado em Araras, Rio de Janeiro, de 4 a 7 de maio. O evento reuniu cerca de 60 participantes, obreiras e obreiros, bem como lideranças leigas da IECLB. O local de sua realização correspondeu a uma dupla motivação histórico-contextual. Em Nova Friburgo, Rio de Janeiro, a Comunidade Evangélica Luterana, a mais antiga da IECLB e do protestantismo brasileiro a existir de forma ininterrupta, celebrara, no dia 2 de maio, 180 anos de existência e inaugurara o primeiro busto de Lutero ao ar livre em solo brasileiro. Nos anos 70 do século passado, durante o regime militar, o Centro Luterano de Araras foi palco de importantes seminários da IECLB sobre a realidade brasileira, organizados pela antiga Região Eclesiástica I. Além disso, a localização ressaltava a situação de diáspora da IECLB numa região que concentra 1/3 da população do Brasil.

O Documento Final desse fórum foi remetido pelo Conselho da Igreja aos sínodos e comunidades, para estudo e reações. Para a reunião da Presidência com os Presidentes e Pastora/es Sinodais, de 17 a 19 de setembro, o documento recebeu um complemento com “desdobramentos práticos”. O diálogo então havido forneceu novos insumos, incorporados na versão apresentada ao XXIV Concílio da Igreja, realizado de 13 a 17 de outubro. Apreciado primeiramente pelas três câmaras do Concílio e, posteriormente, em mais detalhes pela Câmara 3, o documento recebeu a redação apresentada ao pleno do Concílio. Discutido em sessão plenária, a versão final foi adotada por esse órgão deliberativo máximo como documento orientador da IECLB concernente à unidade da Igreja.

Fundamentação teológica

1. Que quer Jesus Cristo, neste momento, de uma igreja precisamente com as características da IECLB? Essa pergunta motivadora guiou a IECLB em sua reflexão e neste posicionamento orientador. No estudo efetuado, foi observado um triplo enfoque ao ser abordado o tema da unidade: análise do contexto brasileiro, tomada de maior consciência acerca da base confessional da IECLB e exploração dos caminhos que possam fortalecer sua unidade, seu testemunho e seu serviço. Justamente no momento em que se lança a um projeto missionário de maior envergadura (PAMI) e assume os desafios que o momento brasileiro coloca, a IECLB deve ocupar-se, em todas as dimensões, com a pergunta acerca do significado de ser Igreja, ser Evangélica, ser de Confissão Luterana e estar no Brasil.

2. Vivemos um momento singular, marcado pela perplexidade diante de crescentes desafios e de uma sociedade cada vez mais complexa, sobretudo no que diz respeito ao fenômeno religioso. Este novo momento tem nos conduzido a um progressivo uso do termo “luterano”, juntamente com “evangélico luterano” e “evangélico de confissão luterana”, no esforço de sublinhar nossa especificidade, não apenas em relação ao catolicismo, mas também em id de outras vertentes do mundo evangélico, pentecostal e neopentecostal.

3. Embora as dificuldades em compreender analiticamente o complexo contexto presente que a desafia, a IECLB sente-se chamada a estar junto e a caminhar solidariamente com pessoas em suas angústias, dores, necessidades, compartilhando com elas os valores do evangelho e a riqueza da sua herança confessional, buscando com elas discernir e disseminar novos sinais de esperança.

4. Ao considerar a história da IECLB, foi possível perceber que sua identidade foi se forjando em meio às mais diversas dificuldades, mas acima de tudo em atitude de abertura e de compromisso com o contexto em várias frentes, oportunidades e momentos: a imigração, a constituição de comunidades autóctones, a organização em sínodos nas últimas décadas do século 19 e em princípios do século 20, a superação da crise da germanidade durante a Segunda Guerra Mundial, a constituição de uma igreja com caráter nacional, o aprofundamento da consciência da responsabilidade social quando do regime militar, o surgimento de novos movimentos internos nos anos 60, a migração interna de luteranos, o desenvolvimento das relações ecumênicas, os desafios políticos nos anos 70 (a denúncia à tortura de presos políticos, a solidariedade com os povos indígenas, o apoio aos pequenos agricultores e à reforma agrária etc.), a por vezes aguda tensão entre as tendências teológicas internas, a reestruturação da IECLB, o esforço de ação missionária planejada da IECLB (PAMI, 2000). Por vezes a realidade gerou crises internas; em todos esses momentos, porém, o contexto trouxe desafios e possibilidades, através dos quais se forjou a IECLB, tal como ela é.

5. Ao olhar o caminho trilhado pela IECLB até aqui, destacamos a presença e a atuação das mulheres na sua história. As experiências compartilhadas e vivenciadas e a força de sua atuação em todos os âmbitos eclesiais moldou o rosto desta Igreja. Também é importante registrar a ordenação de mulheres aos diferentes ministérios. Ainda assim, é necessário confessar que em nossa historiografia há uma carência de registros sobre a história de vida e o testemunho da mulher, relegando a sua ação, em boa medida, à invisibilidade e ao não-reconhecimento.

6. Hoje, a IECLB, assim como as demais igrejas, vê-se diante de uma pluralidade de contextos específicos, tais como: globalização e seu impacto no cotidiano, desemprego, formação profissional insuficiente, exclusão social, precariedade da atenção à saúde e à educação, tensão e conflitos no campo, crescimento da violência, em particular nas grandes cidades, desestruturação familiar, anseio por espiritualidade, questões de sexualidade, gênero e etnia. Essa pluralidade de contextos gera certa desorientação que tende a fazer com que as atenções sejam concentradas no cenário interno da Igreja (formação de lideranças e obreiros/as, questões de identidade litúrgica e teológica, de modelo eclesial, de disciplina e autoridade, de espiritualidade e missão, etc.). Obviamente, também estas últimas questões são relevantes na vida da Igreja. Contudo, o voltar-se para assuntos internos não deveria constituir uma finalidade em si mesma, mas decididamente um aparelhar-se para enfrentar os desafios maiores que a realidade brasileira nos apresenta. Assim haverá de ser também quando enfocamos o tema da unidade.

7. A história da formação da confessionalidade da IECLB foi marcada pela presença de várias vertentes teológicas, trazidas pelos membros e obreiros, estes advindos de igrejas e sociedades missionárias, primeiramente da Europa, em especial da Alemanha, posteriormente também dos Estados Unidos e, mais recentemente, de outros países. Destaca-se aqui a presença concomitante das tradições confessionais luterana, reformada e unida. Essas diferenças, e as tensões por elas provocadas, não constituíram, por sua vez, impedimento para a criação das comunidades nas primeiras décadas de sua existência até a primeira formação sinodal no século 19. Prevaleceu nesse processo a lógica evangélica da inclusão.

8. É possível verificar, no entanto, que no processo de formação confessional, já ao longo do século 20, a IECLB procurou equacionar suas tensões teológicas por intermédio do diálogo e do entendimento, quando foram trabalhadas e assimiladas as semelhanças e as diferenças. Como decorrência deste processo, deve ser ressaltado que a vertente luterana tornou-se a expressão oficial de confessionalidade na IECLB, sem, no entanto, excluir as demais tradições teológicas existentes no seu universo. Este luteranismo, de cunho ecumênico, tem características próprias da IECLB. A confessionalidade luterana da IECLB é, assim, não apenas herança teológica e espiritual da Reforma, mas também construção de identidade desta Igreja dentro de um contexto específico. Tem, portanto, uma fisionomia própria, peculiar, oriunda de nossa própria história e nosso contexto. Com essa fisionomia peculiar, a IECLB insere-se na comunhão luterana mundial e sabe-se vinculada, em fé, a todas as igrejas que confessam Jesus Cristo como Senhor e Salvador.

9. Na compreensão luterana, Igreja é comunhão daquelas pessoas que Deus chama à fé em Cristo, mediante o agir do seu Espírito. A Igreja deve sua existência à eleição pelo Pai, à reconciliação pelo Filho e à comunhão no Espírito Santo – um Espírito que não constrange, mas liberta para uma resposta de fé à graça justificante de Deus. Este Espírito cria a fé, utilizando-se dos meios da graça, a saber, a palavra de Deus, em lei e evangelho, e os sacramentos do batismo e da ceia do Senhor. Discernir corretamente entre lei e evangelho, e viver adequadamente a realidade do batismo e da ceia do Senhor são desafios permanentes para a Igreja.

10. O estudo das bases bíblico-confessionais da IECLB tornou evidente que a unidade é, antes de tudo, dom gracioso de Deus. Esta dádiva divina é também um compromisso de todos nós. Isto é: não somos chamados a construir a unidade, mas recebê-la e preservá-la (Efésios 4.3ss). A expressão maior da unidade orgânica da Igreja encontra-se na concordância em torno daquilo que é essencial para a sua existência: a doutrina do evangelho e a administração correta dos sacramentos. Acerca das questões não-essenciais à salvação, “tradições humanas, ritos e cerimônias”, não é necessário haver unanimidade (CA 7). Contudo, quando não entendidas como meios necessários à salvação, devem ser respeitadas a identidade própria das comunidades e a unidade da igreja em suas múltiplas expressões, como úteis para a boa vivência comunitária e eclesial (cf. CA 15).

11. Na situação atual há na IECLB um amplo consenso teológico e doutrinário básico em torno das questões essenciais, plasmado em seus documentos normativos e orientadores. Todavia, aqui e ali constatamos desvios doutrinários profundos e inaceitáveis, como, por exemplo, a concepção teológica que dá respaldo à prática do rebatismo. Esta não pode ser aceita como prática teologicamente legítima. Embora haja necessidade de maior aprofundamento teológico-espiritual, especialmente com relação ao batismo e à compreensão do agir do Espírito Santo, a prática do rebatismo, por afrontar diretamente o cerne da fé e os documentos normativos e orientadores da IECLB, equivale à auto-exclusão da base confessional da IECLB. No entanto, o Evangelho de Jesus Cristo nos exorta ao arrependimento, mediante o qual somos perdoados e reintegrados na comunhão dos santos pelo agir gracioso de Deus.

12. O trato das questões que afetam a unidade da Igreja, requer ambas: integridade evangélica e sensibilidade pastoral. Nas situações controvertidas, torna-se necessário alcançar um consenso que não seja simples decisão de maioria nem decreto da Direção da Igreja, mas fruto de um processo teológico e espiritual que, com paciência e respeito às consciências, interpretando os “sinais dos tempos” e, simultaneamente, com plena disposição para alcançar definições doutrinárias inequívocas, ouve a Escritura, interpreta a tradição confessional e dialoga com irmãs e irmãos, confiando que o Espírito Santo nos “guiará para toda a verdade” (João 16.13). Nesse sentido, os três pilares da Reforma protestante – somente Cristo, somente pela graça, somente pela fé –, acompanhados da plena consciência de que somente a Escritura nos serve de norma e fonte de fé, são compromisso irrenunciável da confissão luterana para a vivência comunitária. São conceitos mutuamente inter-relacionados, e Cristo é centro e senhor da Escritura, entendida não como código de leis, mas como palavra viva e libertadora de Deus. Justificados pela graça, mediante a fé, somos, como Lutero expressou, simultaneamente livres e servos, livres na fé e servos no amor – livres diante e a partir de Deus, e servos em nossa relação com o próximo. A IECLB é permanentemente chamada a ter nesta peculiar liberdade da pessoa cristã uma de suas marcas distintivas.

13. Obviamente, esta reflexão sobre a identidade confessional da IECLB não é uma finalidade em si, mas apenas um aparelhar-se para a missão com a qual Jesus Cristo a incumbiu de testemunhar em palavra e ação a Boa Nova de Cristo em terras brasileiras. A missão, por sua vez, não é concebida como negação do compromisso ecumênico. Ao contrário, a cooperação ecumênica entre igrejas que se respeitam mutuamente, sem renunciar a suas próprias identidades, enriquece a cada uma das igrejas e contribui decisivamente para a credibilidade da missão. Nesta, o horizonte último é o da plenitude do reino de Deus.

14. Enquanto caminha e se desincumbe de sua tarefa, cabe a toda a IECLB manter viva a admoestação que se encontra em Efésios 4.1-6: “Rogo-vos, pois, (...) que andeis de modo digno da vocação a que fostes chamados, com toda humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-vos uns aos outros em amor, esforçando-vos diligentemente por preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz; há somente um corpo e um Espírito, como também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo; e um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos.”

Desdobramentos práticos

1. De que forma se expressa nossa unidade como IECLB? Há muitas expressões de unidade na fé e na vivência prática. Nem todas são de igual importância, mas nenhuma delas é desprezível. Em seu conjunto transmitem a imagem da Igreja que somos ou queremos ser.

2. Distinguimos diferentes dimensões, níveis e graus de comprometimento. Retomando o expresso na seção anterior, observamos que há uma unidade que é essencial e deve ser permanente, aquela que temos na compreensão comum do Evangelho como boa notícia de que, em Cristo, Deus nos redimiu, de uma vez por todas, exclusivamente por graça, redenção que recebemos em nossas vidas mediante a fé em Cristo, através da Palavra e dos Sacramentos, independente de nossas obras e sem mérito de nossa parte, mas por obra do Espírito Santo. Por isso, é essencial e permanente nossa unidade numa compreensão comum acerca do evangelho e dos sacramentos. Divergências nesses assuntos não podem ser aceitas como “normais” no seio da Igreja, muito menos como expressão de benéfica diversidade no corpo de Cristo. Devem ser superadas mediante perseverante diálogo teológico e pastoral ou, em casos mais agudos, mediante a disciplina eclesial. Podemos dizer que esta é a unidade interior da Igreja, sobre a qual repousa a unidade exterior, que sempre será fictícia se não houver aquela unidade evangélica interior. Não bastam declarações de se ser IECLB; “ser IECLB” tem um irrenunciável conteúdo confessional.

3. Já outras expressões de unidade são fruto de compromissos comuns que assumimos como Igreja em vida e missão. Não podem ser entendidas como essenciais para a fé. Muitas vezes provêm de nossa herança histórica, teológica e espiritual como Igreja. Também podem ter a marca de nossa cultura, da proveniência étnica de grande número de nossos membros ou do contexto em que nossas comunidades têm surgido, se desenvolvido e fortalecido. Nesse sentido, essas expressões nunca são desprezíveis, têm seu valor, ainda que limitado, e podem, na prática, até mesmo ser importantes como expressão viva da Igreja. Obviamente, porém, jamais podem ser elevadas ao nível daquela compreensão fundamental da fé. Elas também evoluem e se alteram conforme a trajetória histórica e teológica da Igreja e suas decisões conciliares.

4. Uma menção especial deve ser dada a decisões conciliares que ordenam a vida da Igreja. Elas geralmente são fruto de processos longos de reflexão, consulta e deliberação nas mais diversas instâncias da Igreja. Já por isso se revestem de importância eclesial. Mesmo assim, numa Igreja da Reforma, decisões conciliares não são infalíveis e, portanto, sempre são reformáveis e, assim, passíveis de reflexões e debates teológicos no interior da Igreja. Mas elas expressam o sentir da Igreja como “comunidade de comunidades”, num determinado tempo e lugar. Nessa qualidade, elas devem ser observadas, enquanto estejam em vigor e não tenham sido alteradas pelas instâncias constituídas.

5. Por último, também há uma finalidade bem pragmática na unidade da Igreja: desde que não confundida com uniformidade, que sufoca a saudável diversidade de formas, de estilos, de espiritualidade e de perspectiva teológica, a unidade da Igreja contribui para a maior credibilidade e eficácia de sua missão. Ela também dá coerência a seu testemunho. Quando Jesus intercedeu pela unidade de seus discípulos em Deus, como ele e o Pai são um, o fez também “para que o mundo creia” (João 17.21). A unidade provém de Deus, cria comunhão e resulta em frutos de fé na missão de Deus.

6. Quais as expressões de unidade que podemos discernir na IECLB e que devemos observar ou fortalecer?

6.1. Escritos.

A Constituição da IECLB (art. 5.o) coloca de maneira clara a base confessional da Igreja: em primeiro lugar, as Sagradas Escrituras, compostas do Antigo e Novo Testamentos, seguidas das confissões dos credos da Igreja Antiga, e, como confissões da Reforma, a Confissão de Augsburgo e o Catecismo Menor de Lutero. A Constituição também afirma a natureza ecumênica da IECLB, como vínculo de fé com as igrejas do mundo que confessam Jesus Cristo como único Senhor e Salvador.

Outros escritos relevantes para a unidade da IECLB, embora em nível descendente de importância, são:

a) os documentos normativos (Constituição, Regimento Interno, Estatuto do Ministério com Ordenação – EMO, Ordenamento Jurídico-Doutrinário – OJD);

b) os documentos orientadores (Nossa Fé – Nossa Vida, PAMI, A IECLB às Portas do Novo Milênio, A IECLB no Pluralismo Religioso);

c) manifestos e posicionamentos;

d) declarações conciliares;

e) cartas pastorais da Direção da Igreja.

Todos esses documentos e escritos, em seu conjunto, dão a feição oficial da IECLB. Segundo a Constituição da IECLB, “a Comunidade tem as seguintes incumbências: I – realizar a pura pregação da palavra de Deus e a reta administração dos sacramentos; II – zelar para que o testemunho do Evangelho seja dado em conformidade com a confissão da IECLB, em doutrina, vida e ordem eclesiásticas” (Art. 11.º, incisos 1 e 2). Da mesma forma, todas as obreiras e todos os obreiros da IECLB, em sua ordenação, prometem diante de Deus e da comunidade, observar essa base confessional da IECLB e acatar os documentos normativos e as regulamentações da IECLB. O quão fundamental é este aspecto fica realçado quando o Estatuto do Ministério com Ordenação determina que “a IECLB, através de seus órgãos competentes, efetuará permanente acompanhamento quanto ao cumprimento dos compromissos assumidos pela obreira ou pelo obreiro por ocasião da sua ordenação” (EMO, art. 26). O EMO também estabelece com clareza (art. 27): “Instalado no campo de trabalho, a obreiro ou o obreiro, em seus pronunciamentos e atitudes, deverá considerar a Igreja como um todo, empenhando-se pela sua unidade.”

6. 2. Órgãos decisórios da IECLB.

O órgão decisório máximo da IECLB é o Concílio da Igreja, em nível sinodal o é a Assembléia Sinodal. Como órgãos constituídos a partir das bases comunitárias da IECLB, suas decisões não são opcionais, mas compromissivas para as comunidades, paróquias, sínodos, instituições e setores da Igreja. No interregno de suas reuniões, a instância maior de decisão é, respectivamente, o Conselho da Igreja e o Conselho Sinodal. Fóruns, seminários e conferências de obreiros/as não têm poder decisório, mas igualmente contribuem para a unidade da Igreja, tanto quando abordam aspectos programáticos da implementação de decisões conciliares, como quando lançam novos desafios e debatem assuntos gerais na Igreja.
Inobservância da base confessional da IECLB ou conflitos que ameaçam a unidade da Igreja, são tratados pastoralmente e, em casos de gravidade ou quando o diálogo se mostra infrutífero, disciplinarmente, conforme os regulamentos. As iniciativas pastorais ou disciplinares ocorrem, em um primeiro momento, pelas competentes instâncias sinodais e, quando necessário, pelo Conselho da Igreja, pela Presidência ou outras instâncias regulamentares em âmbito nacional.

6.3. Unidade na espiritualidade.

De forma muito palpável a unidade da Igreja se concretiza no culto. A IECLB tem uma ordem de culto, aprovada em Concílio, sem rigidez e sempre moldável às circunstâncias contextuais, mas contemplando, como o termo ordem indica, elementos essenciais e comuns num culto cristão. Desde 2003 dispomos também de um Livro de Culto orientador para a preparação dos cultos. Ele conjuga elementos da tradição litúrgica luterana e ecumênica, tomando em conta a realidade contextual contemporânea. Seguindo a exortação apostólica, a IECLB reconhece como importante que tenhamos não simplesmente uma ordem de culto, mas sempre ordem no culto (1 Coríntios 14.40). Contudo, nosso culto pode e deve ser caloroso, acolhedor, em que as pessoas saibam e sintam que Deus e a comunidade as apóiam e assistem em suas necessidades.

Conforme o Estatuto do Ministério com Ordenação, “as obreiras e os obreiros, ao presidirem cultos e ofícios e ministrarem sacramentos, usarão veste litúrgica, que lhes distinguirá a função, em conformidade com as disposições da Igreja” (EMO, art. 18, par. único).

Mais recentemente adotamos, como Igreja, a prática de motivos de intercessão comum em nossos cultos, fortalecendo nossos laços espirituais. Os considerandos que acompanham a petição a ser incluída na intercessão nos cultos podem ser considerados como minicartas pastorais da Presidência da IECLB sobre diversos assuntos em pauta na vida da Igreja. Devocionários comuns e as Senhas Diárias dão expressão à unidade também na vida diária e no interior de nossos lares.

6.4. Na Comunicação.

A IECLB tem uma logomarca que deve identificar templos, instituições, centros comunitários e recintos da Igreja, bem como constar em materiais de divulgação, tornando a Igreja visível e reconhecível. Como meios de comunicação temos, além de publicações sinodais, em nível de Igreja, o Jornal Evangélico Luterano, a revista Novolhar e vários materiais de capacitação e formação, como o Amigo das Crianças, além de editoras, rádios e outros veículos de comunicação. Crescente importância vem tendo o site oficial da IECLB: www.ieclb.org.br. Todos esses veículos devem ser apoiados e servir à unidade da Igreja.

6.5. Tema e Lema do Ano.

A IECLB elege a cada ano um Tema e Lema do Ano que norteiam sua reflexão em âmbito nacional. Ao Tema do Ano está associada a escolha de uma imagem (arte do Tema) que lhe confere, no respectivo período, uma marca visual distintiva. Adicionalmente, são oferecidos materiais de estudo, liturgias, peças de divulgação etc., que fomentam a unidade teológica, espiritual e visual na IECLB.

6.6. Finanças.

Também o sistema de contribuição financeira na IECLB deve ser entendido como fator de unidade e já por isso deve ser observado criteriosamente. Os membros da IECLB são incentivados a contribuir proporcionalmente a seus rendimentos e bens, como sinal de gratidão a Deus. Não pagam por um serviço religioso a eles prestado, mas participam na missão da Igreja. As comunidades, por sua vez, conforme regulamentação em vigor, contribuem para o respectivo sínodo e para a Igreja em nível nacional com 10% de sua arrecadação. As ofertas recolhidas em nossos cultos para necessidades específicas obedecem a um plano de ofertas estabelecido pela IECLB, que se divide em ofertas destinadas pela Igreja, pelos Sínodos e pelas próprias Comunidades. É importante saber-se, quando nos reunimos em culto, que estamos contribuindo, em toda a Igreja, para finalidades comuns. Como expressão de solidariedade fraterna temos a Obra Gustavo Adolfo que apóia comunidades mais fracas em suas necessidades, inclusive com campanhas educativas entre crianças e confirmandos/as, e o Fundo de Solidariedade entre os Sínodos, como apoio aos sínodos ainda não auto-sustentáveis.

6.7. Missão, Diaconia, Educação e Música.

No XXII Concílio da Igreja, em Chapada dos Guimarães / MT (2000), a IECLB adotou um Plano de Ação Missionária (PAMI), que anima e norteia nossa ação missionária. Como Igreja fomentamos também a ação diaconal. Desde o início de nossa história o empenho pela educação e pela diaconia tem sido uma marca distintiva de nossa Igreja. No ensino formal, contamos com o Departamento de Educação e nossas escolas mantêm hoje vínculo de identidade e de cooperação através da Rede Sinodal. Para a diaconia, contamos, além do Departamento de Diaconia, com a Fundação Luterana de Diaconia (FLD). Numerosas instituições de assistência social e promoção comunitária têm vinculações históricas, confessionais ou administrativas com a IECLB. O canto tem sido uma característica importante de igrejas oriundas da Reforma. Isso se expressa em comunidades da IECLB através de corais, conjuntos musicais e na produção de novos hinos e cânticos. Sem ignorar os novos hinos e cantos, a IECLB tem hinários oficiais.
6.8. Formação teológica.

A formação teológica foi importante no próprio desenvolvimento histórico da IECLB. Ainda antes da constituição da Federação Sinodal (1949), os sínodos de então se uniram na criação da Escola de Teologia (hoje EST) de São Leopoldo. As obreiras e os obreiros da IECLB são formados em centros de formação reconhecidos pela Igreja, atualmente a Escola Superior de Teologia – EST (São Leopoldo/RS), a Faculdade Luterana de Teologia – FLT (São Bento do Sul/SC) e a Faculdade de Teologia Evangélica – FATEV (Curitiba/PR). Ainda que os três centros de formação tenham legitimamente características próprias, oriundas de sua trajetória específica no interior da Igreja, todos assumiram o compromisso de observar a confessionalidade da IECLB e o perfil de obreiro/a e de formação estabelecido pelo Conselho da Igreja. No momento em que se registram tensões internas na IECLB, os centros de formação são particularmente chamados a dar sua decidida contribuição em favor da unidade, na formação das/os futuras/os obreiras/os da IECLB. Nesse sentido, o Período de Habilitação Prática para o Ministério (PPHM) se reveste de particular importância, porque integra as/os candidatas/os ao ministério formadas/os nos três centros de formação.

Ainda que tenhamos de melhorar em forma de programa da IECLB como um todo, há, contudo, em nível sinodal, comunitário e de movimentos, múltiplas iniciativas de formação continuada de obreiras/os e de capacitação teológica de lideranças nas comunidades e do próprio povo de Deus. Este é um processo altamente benéfico para a vida das comunidades e da Igreja. Contudo, a fim de evitar o surgimento de uma dinâmica de dispersão e fonte latente de divisão, será importante que todas as iniciativas tenham claramente em mente, quando da adoção de programas de capacitação teológica, a orientação confessional da IECLB. Para favorecer a unidade, a IECLB, em nível nacional, buscará estabelecer vínculos de cooperação entre as diversas iniciativas, inclusive integrando-as num programa de formação continuada na fé, através de todas as faixas etárias, desde a infância até a terceira idade.
6.9. Política de pessoal.

A IECLB empenha-se por uma coerente política de pessoal, coordenando os processos de designação, envio, instalação, avaliação, formação continuada e passagem para a inatividade de seus obreiros/as. Quando da ordenação estabelece-se um “vínculo confessional e ministerial” entre a/o obreira/o e a IECLB (EMO, art. 5.o). Cada qual é, portanto, obreira ou obreiro da IECLB, não mero funcionária/o de um campo de trabalho, em que atua. As conferências de obreiras/os, organizadas pelos Sínodos e/ou pela IECLB, são importantes como espaço de comunhão, estudo, oração e coordenação de atividades de parte dos/as obreiros/as da IECLB, inclusive na integração dos vários ministérios específicos e na observância da identidade teológica, das normas, metas e programações da IECLB.

6.10. Setores de trabalho.

Diversos setores de trabalho na Igreja (Culto Infantil, JE, OASE, Fórum da Mulher Luterana, Legião Evangélica, Casais, Terceira Idade) desenvolvem atividades abrangentes em nível nacional e/ou preparam materiais para uso nas comunidades e seus grupos. Contribuem para tornar a Igreja mais unida, na medida em que promovem atividades identificadas com a IECLB.

Conclusão

Através de todos esses meios, a IECLB expressa sua unidade e vai, passo a passo, assimilando suas implicações. Trata-se, podemos dizer, de um grandioso mutirão, processo no qual também surgem tensões e, mesmo, conflitos ameaçadores. A diversidade existente na IECLB, em termos de teologia, espiritualidade, de vivência comunitária e prática missionária, é, de um lado, expressão de vitalidade da Igreja; de outro, porém, pode esgarçar o tecido da comunhão. Fundamentalismo teológico na interpretação da Escritura, tradicionalismo rígido, disputas de poder entre correntes teológicas, desconsideração da liturgia e dos símbolos eclesiais, uso preferencial de literatura teológica e catequética não proveniente da IECLB são algumas das ameaças reais e palpáveis à nossa unidade.

Tanto mais importante é que nos reunamos renovadamente sob o Evangelho de Cristo, conforme as bases confessionais da IECLB, comprometendo-nos com uma prática que expresse e fortaleça nossa unidade, consoante a orientação aqui emanada. Todas as comunidades, setores, instituições, centros de formação e movimentos são convocados a não medir esforços, consoante o lema bíblico deste ano, para “preservar a unidade do Espírito, no vínculo da paz” (Efésios 4.3). Assim estaremos também trilhando, conforme nos insta o tema da IECLB para 2004, “pelos caminhos da esperança”. Como Igreja reunida em Concílio, pois, 180 anos após o surgimento de nossas primeiras comunidades, em Nova Friburgo/RJ e São Leopoldo/RS, nos comprometemos a fortalecer todos os sinais e as expressões de nossa unidade aqui arrolados, e a buscar ainda outros mais. Através deles todos empenhemo-nos, decidida e corajosamente, em sermos fielmente Igreja de Jesus Cristo no Brasil. Para tanto imploramos: “Vem, Espírito Santo, ampara, orienta e fortalece a tua Igreja. Dá que seja fiel a Jesus Cristo, para a glória de Deus Pai. Amém.”


São Leopoldo, 16 de outubro de 2004
Concílio da Igreja
Portal Luteranos - na Aba: Unidade - Manifestos e Declarações
sábado, 21 de julho de 2012
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