Povo Luterano - 1987
Carta Pastoral da Presidência - Manifestação Oficial

Que variedade, Senhor, nas tuas obras! Todas com sabedoria as fizeste; cheia está a terra das tuas riquezas. (Salmo 104,24)

O salmista, ao contemplar seu mundo, descobre nele as maravilhas do Deus Criador. Admira-se da sabedoria divina e enaltece a riqueza que há na criação. Talvez nem sempre seja fácil compartilhar o louvor do salmista. Pois, em nosso mundo existe também o crime, o mal, o sofrimento. E todavia, creio que somos convidados por este salmo a não permanecermos presos aos lados sombrios da vida. Há também maravilhas a admirar e benefícios a reconhecer. Não faltam os sinais da ação de Deus, seja natureza, seja na história, que são motivo de gratidão e esperança. Que Deus multiplique os sinais de Seu Reino entre nós e nos assista com o seu poder.

Ambas as coisas, as dificuldades e os sinais da ação divina, pude eu de certa forma experimentar nos quatro Concílios Regionais, dos quais ultimamente participei. Tiveram todos suas características próprias, devido à diversidade das situações e dos lugares, bem como devido ao enfoque do tema e da própria composição. Não faltaram conflitos. E todavia, creio poder dizer sem exagero que a IECLB está em movimento, que está tomando consciência do quanto é importante o seu testemunho, sim, que há despertamento. Ainda não temos alcançado o alvo. Muito resta a fazer. Mesmo assim, há motivos para a gratidão.

O assunto principal desta minha carta pastoral que, na verdade, já deveria ter sido escrita bem antes, é um problema sentido em nossa Igreja com crescente preocupação. Ainda não sabemos realmente como trabalhá-lo. É que gradativamente se acentua, também em nossa Igreja, a diferença entre membros em melhores e outros em piores condições de vida. O generalizado empobrecimento do povo brasileiro, do qual escapa apenas uma minoria, mostra seus nefastos efeitos em todos os sentido e dificulta o trabalho da IECLB e de suas comunidades. São atingidos especialmente os pequenos agricultores, os operários, mas também o pequeno empresário, comerciante e outros. A época em que os membros da IECLB apresentavam mais ou menos o mesmo nível de vida e eram raros os pobres entre eles, estes tempos infelizmente passaram. A situação social dos evangélicos luteranos se diversificou e o número de membros em situação econômica precária aumentou.

Que nos exige esta situação? É claro que o evangelho não permanece alheio a ela. Somos desafiados em nossa fé e em nosso amor. Que fazer?

1. Em primeiro lugar parece-me que devemos ver o que está realmente acontecendo em nosso País. Em outras épocas, talvez, ser pobre fosse culpa própria, resultado de irresponsabilidade, acomodação, preguiça.

Mas isto hoje é diferente. Vivemos em tempos em que o trabalho vale pouco. Somente quem tem é que progride, ou seja quem possui dinheiro, bens ou conhecimentos. A grande maioria dos pobres é vítima deste sistema. Não lhes dá chances. É importante ver isto para não fazermos juízos errados sobre quem empobreceu. Nossa política condena o pobre a permanecer pobre. Basta pensar na política salarial e de preços.

2. Em segundo lugar, acho que esta situação exige da comunidade cristã o empenho pela justiça. Os desequilíbrios sociais em nosso país são enormes. E são perigosos, porque provocam violência cada vez maior.

Mas não é somente por causa do perigo que comunidade cristã não pode conformar-se com este desequilíbrio. Não o pode por causa de seu compromisso com o amor. Este sofre com os que sofrem. Por isto devemos insistir em que seja feita mais justiça. Como? Talvez seja um assunto a ser discutido na comunidade. Lanço aqui a proposta.

3. Finalmente creio que a situação exige também que aprendamos, mais do que o estamos fazendo, a carregar as cargas uns dos outros (Gl 6.2). Somos desafiados a ajudar, dentro de nossas possibilidades. Somos desafiados a repartir. Isto vale, não por último, com relação à contribuição à comunidade. Já há muito falamos na “contribuição proporcional”, isto é, numa contribuição graduada, de acordo com as capacidades. De qualquer forma, não é justo que membros sejam desligados ou se desliguem da comunidade só porque não podem pagar a contribuição. Devemos ensaiar aí o amor fraternal, sem falsa vanglória de um lado e sem falso constrangimento de outro. É uma forma de equilibrar as cargas, ao menos em parte.

Naturalmente, na distribuição das cargas o aspecto econômico é um só. Existem outros. Também tempo, dons, capacidades, participação e colaboração são importantes e deveriam ser compartilhados. Aliás este compartilhar tão pouco em uso em nossa sociedade é um dos inconfundíveis sinais de comunidade cristã. Ela vive do evangelho, dizendo que Deus compartilhou tudo conosco. Deu seu próprio Filho em favor de nós. Como nós não deveríamos compartilhar pelo menos alguma coisa com os nossos irmãos e irmãs? O amor para tanto compromete.

Aliás, isto me faz lembrar uma outra coisa. Recebi convites do movimento “Renovação” para diálogos e palestras de Pastores dos Estados Unidos, do Luteranismo Carismático. Prometem avivamento comunitário e fazem muita missão em nossas comunidades. Sei que estão tendo algum eco.

Julgo ser o meu dever alertar que se trata de um movimento separatista. Além disto, creio que em nossa Igreja temos suficiente potencial para o despertamento, de modo que podemos prescindir desta ajuda. E finalmente lembro que o primeiro fruto do Espírito Santo não é nenhum fenômeno extático ou extraordinário, mas sim o amor (Gl. 5.22).

Era isto o que hoje lhes queria escrever. Falei de problemas e compromissos. Mas acima de tudo o que nos constrange está a promessa de Deus de não abandonar os que nele confiam. Que Ele nos dê força para sempre acreditarmos no que prometeu.


Porto Alegre, 19 de outubro de 1987

Dr. Gottfried Brakemeier

Pastor Presidente
Gottfried Brakemeier - Pastor Presidente
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sexta-feira, 20 de julho de 2012
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