A voz da resistência do Natal
“O relato do Natal não é uma estorinha para distrair criancinhas desavisadas e ingênuas, mas é o relato do início da resistência contra o projeto do mundo para começar a construir o Projeto do Reino de Deus”

Deus radicaliza a sua ação no NT tornando-se pessoa numa família camponesa oprimida pelo Estado Romano durante o processo de opressão. Deus se incorpora fisicamente na classe camponesa tornando-se o camponês sem terra e sem teto, Jesus de Nazaré, numa região da periferia, desprezada e marginalizada pela elite do poder religioso do Templo de Jerusalém. Deus radicaliza sua opção de classe para construir o Projeto de Deus que Jesus chama de Reino de Deus. 

O relato do Natal não é uma estorinha para distrair criancinhas desavisadas e ingênuas, mas é o relato do início da resistência contra o projeto do mundo para começar a construir o Projeto do Reino de Deus (Lc 4.43). A voz de resistência de Deus se materializa no acontecimento do Natal. Por isso o relato do Natal segundo Lucas 2.1-5 começa assim: 

“Naqueles dias, foi publicado um decreto de César Augusto, convocando toda a população do império para recensear-se. Este, o primeiro recenseamento, foi feito quando Quirino era governador da Síria. Todos iam alistar-se, cada um à sua própria cidade. José também subiu da Galiléia, da cidade de Nazaré, para a Judéia, à cidade de Davi, chamada Belém, por ser ele da casa e família de Davi, a fim de alistar-se com Maria, sua esposa, que estava grávida”.

O texto de Lc 2.1-5 começa como começam os livros proféticos, com uma análise de conjuntura da realidade de opressão. Este relato é uma análise da conjuntura do Império Romano: diz quem é quem no processo de opressão e como acontece a opressão exercida pelo Estado. A opressão acontece pela legislação tributária, que era a forma de espoliação dos povos ocupados por Roma. Lucas coloca frente a frente as duas classes em luta: o Estado e a classe camponesa. O Estado era controlado pela classe escravista latifundiária romana que usava do exército para conseguir escravos, saquear outras nações e dos que ficavam na terra cobrar impostos. José e Maria são os representantes da classe camponesa da palestina, oprimida pelo pagamento dos impostos. O Evangelho de Lucas denuncia que na véspera do nascimento de Jesus, José e Maria foram obrigados a alistar-se em Belém, para reajustar a tabela dos impostos. 

O relato do Natal denuncia que Israel não é independente, mas é território ocupado militarmente pelo exército romano. Denuncia que o povo de Israel é um povo submetido pelos interesses do imperialismo romano e tem que se sujeitar às normas e leis imperialistas romanas. Igualmente, denuncia a falta de liberdade e vida plena que há na Palestina.

Ainda hoje os mais fracos da terra são vítimas da ditadura do pensamento único para legitimar a ditadura do capital que continua dizendo que não existe outra forma de organizar a sociedade além do imperialismo do capital. Aí vem o tal de Jesus de Nazaré, o Deus encarnado num camponês sem terra, e diz que é possível construir uma nova sociedade e que existe outra possibilidade de se organizar a vida e a sociedade que é o reino de Deus.

Por isso o capitalismo mudou os personagens do Natal. Mudou o Jesus camponês sem terra para o Papai Noel que veste as cores da Coca-Cola, pois antigamente ele vestia-se de verde ou azul. E mudou a mensagem do Reino de Deus para o consumo de mercadorias a serem dadas como presente para viabilizar o capitalismo, que se mantém pela produção de mercadorias. E é no processo de produção da mercadoria, que hoje em dia se dá o processo de exploração da classe trabalhadora gerando o lucro, pelo tempo de trabalho feito, mas não pago.

A mensagem central do Natal é denunciar a exploração dos mais ricos sobre os mais pobres. Deus escolheu o lado que ficar, o lado que está do lado dos que são passados para trás, dos que choram, dos sem comida, dos doentes, dos forasteiros, do sem teto, conforme Ele mesmo ensina em Mt 5.3-10. O Natal veio para dar um fim nessa exploração, com a proposta de uma nova forma de se organizar a vida e a convivência entre as pessoas: o Reino de Deus. Os líderes do Estado Romano e do Templo de Jerusalém entenderam muito bem a mensagem de denúncia embutida no Evangelho do Reino de Deus pregado pelo Cristo. Por essa razão, procuraram a todo custo matá-lo. Crucificaram-no. Mas, Deus venceu a morte. Ressuscitou, vive e governa de eternidade a eternidade. E julgará os vivos e os mortos em sua segunda vinda em glória. O Reino de Deus é o projeto para a classe camponesa oprimida: uma sociedade sem classes, igualitária e fraterna construída a partir do amor a Deus e ao próximo onde os meios de produção pertencem à coletividade (At 2 e 4); o relato do Natal está nos apontando para um horizonte onde não haverá mais exploração do trabalho e nem alienação do trabalhador de sua produção. 

A verdadeira voz de resistência do Natal de Jesus Cristo deve necessariamente perpassar todos os grupos organizados que defendem a vida digna, igualitária, fraterna, que garante pleno acesso a cidadania com todos os direitos assegurados. Caso contrário é apenas conversa fiada de alienação, exploração e escravidão ideológica e isto não leva ao Reino de Deus. 

A Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil está convocada a ser portadora desta voz encarnada em Cristo Jesus, que denuncia toda e qualquer exploração que acontece neste mundo. Por essa razão a Igreja deve se posicionar, apoiar, estimular, auxiliar e caminhar junto com os mais fracos, pobres, doentes, marginalizados, explorados e perseguidos desta terra. Fazendo esta vontade de Deus, seremos recompensados pelo Senhor da vida, com a coroa da salvação e da ressurreição do corpo.

Feliz Natal a todos os irmãos e as irmãs em Cristo.

P. Enio Luiz Fuchs - Laginha do Pancas
Jornal O Semeador, Dezembro de 2012 - Edição nº 87
sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
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